Noiva de Deus

Comentário sobre o vídeo:  Noiva de Deus

 

Texto elaborado pelo professor da PUC-Minas Eduardo de Jesus para o debate realizado no lançamento do vídeo no Museu de Arte da Pampulha, 25 de março de 2006.

Gostaria primeiramente de agradecer a Leonardo Barcelos e Hélio Lauar a oportunidade de discutirmos publicamente sobre um vídeo tão interessante. Creio que é muito importante lançar-se sobre as obras e desenvolver reflexões que possam de alguma forma ampliar o debate e promover a troca de idéias. Nesta perspectiva vou tentar ser bem direto nas minhas colocações para assim deixar tempo para o debate com a platéia e as possíveis questões que possam aparecer.

Gostaria de pensar em duas direções. A primeira associando o vídeo a partir de uma frase de Raymound Bellour, teórico francês que sempre olha para o universo do vídeo como o espaço “entre”. De Bellour tb é a frase que gostaria de colocar para iniciar minha fala. Segundo Bellour:

“O vídeo é antes de mais nada um atravessador. Passagens aos dois grandes níveis de experiência: o móvel e o imóvel, entre a analogia fotográfica e o que a transforma. Passagens, corolários que cruzam sem recobrir inteiramente esses “universais” da imagem: dessa forma se produz entre foto, cinema e vídeo uma multiplicidade de sobreposições, de configurações pouco previsíveis... O entre-imagens é o espaço de todas essas passagens. Um lugar, físico e mental, múltiplo. Ao mesmo tempo muito visível e secretamente imerso nas obras; remodelando nosso corpo interior para prescrever-lhe novas posições, ele opera entre as imagens, no sentido muito geral e sempre particular dessa expressão”.

Podemos ver essa idéia do atravessador no vídeo  Noiva de Deus. Atravessar significa antes de tudo operar uma passagem entre os diversos níveis de sentido explicitados pela imagem.

As imagens vindas do vídeo, de um modo geral, não se contentam em simplesmente expor de forma mais indicial e direta a imagem, o personagem e a situação, mas opera passagens entre as imagens, textos e sons e com isso acaba por revelar, mesmo que em camadas, os diversos sentidos que essa narrativa pode nos mostrar. Se de um lado vemos essa imagem quase doméstica da mulher sentada revelando-se (contando-se e fazendo-se ao mesmo tempo, sendo cheherazade, como nos sugere o poema de Sandra Penna no final do vídeo) para a camera. De outro podemos ver todas as incrustações e ruídos incluídos na imagem que nos contam de si próprias. Imagem elipse sobre si própria que mostra e esconde, explicita e não revela num jogo típico de quem atravessa, de quem está no entre.

Assim como a personagem, o vídeo tece uma trama da qual não escapa uma só imagem, todas sofrem as interferências. As gagueiras do vídeo e as gagueiras da linguagem se cruzam num espaço múltiplo, múltiplas temporalidades, do onírico ao delírio, da verdade a confusão, e é entre esses pólos que se estabelece um recorte, estreito e em movimento pelo qual podemos observar, a distância, a dor-memória dessa mulher. Se as gagueiras do vídeo sugerem, logo no início, que tudo seja observado através de grades, a cantilena trilha sonora ruído indica que o descaminho é a elipse, o retorno contínuo de uma imagem que não cansa de atravessar, que não cansa de se esconder e de revelar no belo jogo proposto pelos diretores. Se o texto atravessa a imagem do vídeo, encobre partes da imagem com tarjas pretas o exercício do entre-imagens é revelar-escondendo,  jogo erótico do leque, que mostra e esconde. Aqui o recurso de linguagem parece mesmo mostrar essa gagueira da imagem-texto e com isso revela novos sentidos e possibilidades dessa imagem recorrente, dessa imagem que quer revelar-se através da fala, mas que acaba por transcender a imagem vista como ela é, e alcançar a palavra. Palavra que ao contrário da legenda, do texto esclarecedor-muleta da imagem, acaba por fazer explodir as possibilidades de sentido.

Isso fica bastante nítido na imagem do ouvido que é coberta por textos, e completa-se com ruídos de sintonias eletrônicas, sintonias da noiva de deus em busca dos chamados de seu noivo. A imagem combinada com os sons antecipa, revela antes mesmo de ser dito, o chamado que a noiva recebeu. Não é em vão que sobre o plano de detalhe da orelha surgem esses textos, explicitam-se os ruídos, busca-se a sintonia inexistente.

Assim, atravessar, no caso do vídeo “Noiva de Deus”, é também atravessar os caminhos tortuosos da subjetividade em busca de imagens que não entreguem, numa primeira visão, a precariedade da imagem em movimento para revelar o invisível e o indizível - haja visto o jornalismo com suas imagens muletas ou o cinema, que muitas vezes, entrega-se ao falatório típico dos talk shows em narrativas pouco imagéticas.

Em Noiva de Deus, o que vemos é justo o contrário, a imagem é potência, é virtualidade, é possibilidade. Sobretudo possibilidade de revelar o outro e toda a sua complexidade, através dos recursos usados pelos diretores como texto sobreposto a imagem, os sons e as imagens paradas, por exemplo. O que vemos é uma imagem que se deixa atravessar pelos outros códigos como o texto, a locução, a fala e o ritmo da edição em busca de uma complexidade, de uma imagem que escapa e é apreendida ao mesmo tempo. Imagem-memória-dor que não se revela de uma só vez, mas que se entrega aos poucos, que se dá aos poucos, ou que se conta aos poucos.

A segunda referência para comentar o trabalho de Barcelos e Lauar é o universo de Marcel Duchamp em a noiva desnuda pelos seus celibatários, mesmo, também conhecida como o “grande vidro”. Em uma crônica, Jayro Schimitd sobre a obra de Duchamp, o autor comenta a obra:

Imagine-se agora um retângulo transparente, o "Grande Vidro", de aproximadamente três por dois metros, no sentido vertical. O que se passa no vidro é para o imaginário. São dois domínios, pois o vidro foi dividido ao meio no sentido horizontal. No domínio superior, está a noiva, no inferior os celibatários. O contato entre eles é à distância. A noiva, que lembra um inseto gigante e uma máquina agrícola, é uma libélula ou uma mariposa pendurada em uma nuvem, a Via Láctea. Envia um fluido magnético, seu desejo, aos celibatários que se inflam, sendo moldes. Enquanto não recebem o fluxo da noiva, os moldes moem seus próprios grãos, ou seja, vivem o onanismo e quase enlouquecem refletidos em um espelho. O fluido magnético uma vez no domínio inferior dos celibatários é transformado em líquido elétrico e em gás que após várias operações físicas e mentais, quase alquímicas, retornam ao domínio superior, atingindo a noiva, que se distende e se desnuda em gozo.

Ora talvez o contato entre a noiva de deus e suas imagens seja também esse imaginário, que os diretores souberam revelar em fortes tons de vermelho e em intensos textos sobrepostos a imagem.

Do imaginário à imagem pode ser um trajeto complexo que atinge em cheio a realização da imagem tornando-a fetiche de si própria. Imagem com muita qualidade que só consegue revelar aquilo que se desprende no primeiro olhar, forma excessivamente cristalina como um beijo na novela das oito. No caso da noiva de deus o que vemos é o contrário, a imagem ruidosa, bastante típica do domínio do vídeo, serve para ampliar e esconder aquilo que poderia se tornar evidência e sintoma de uma realidade direta e por isso longinqua do imaginário da noiva.

Os celibatários talvez sejam esses que buscam o consolo na imagem mais direta para ficarem retidos na superfície dos imaginários que só surgem quando friccionados com o real. Expostas a toda ordem de recortes, gagueiras, sobreposições e ruídos a imagem que vemos é a ponta de uma enorme trama, que se trama nos envolvendo na narrativa-docuemntário-revelação da noiva de deus.

Eduardo de Jesus, Professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC-Minas

 

AUTOR: Eduardo de Jesus     OBRAS: Noiva de Deus     REALIZADORES: Leonardo Barcelos