Mistérios da intimidade

CRÍTICA – O CÉU SOBRE OS OMBROS ****

Da arquibancada de um estádio, um torcedor persegue os lances do time de futebol. Um homem conversa com dois amigos no balcão de um bar. Em uma pista mal iluminada, uma prostituta se debruça na janela de um carro e conversa com o “cliente”. Três cenas cotidianas — mas que, em O céu sobre os ombros, ganham a dimensão de um mistério a ser desvendado. Realidade, encenação ou um pouco dos dois? A dúvida desorienta e seduz o espectador nos 72 minutos do primeiro longa de Sérgio Borges, um dos fundadores do coletivo Teia.

Um ano após a exibição de A falta que me faz no Festival de Brasília, o grupo mineiro de realizadores volta a afirmar o elo sentimental entre obras que, numa primeira impressão, deslumbram por imagens singulares: é um cinema que firma compromissos íntimos com os personagens, capazes de alterar radicalmente os itinerários das narrativas. Em O céu sobre os ombros, a comunhão com o elenco se dá de uma forma especialmente intensa e, para o público, enigmática.

O longo período de convivência adensa o novelo cinematográfico: os três “atores-personagens” escolhidos por Borges são flagrados com proximidade e despojamento — dentro de casa, nus, no banho, enquanto desabafam ao telefone e fazem sexo. Afetuosa, grudada à pele, a lente digital rejeita pudores e desarma os preconceitos da plateia. A identificação com os desejos dessas pessoas se torna possível, até inevitável, mesmo quando as histórias narradas beiram o extravagante. Uma certeza se impõe: todos — personagens e espectadores — estão sob o mesmo céu.

Seria fácil, por exemplo, tratar com exotismo um tipo como Everlyn Barbin, a transexual que dá aulas na faculdade, dialoga sobre Foucault e se prostitui. Ou o hare krishna Murari Krishna, líder do Galoucura (torcida do Atlético Mineiro), cozinheiro de um restaurante vegetariano, lutador de artes marciais e atendente de telemarketing. Mas, ao agregar generosamente os signos que pertencem ao dia a dia do trio, o cineasta transcende o banal: um passeio noturno de skate, ao som de electropop barato, inspira um dos momentos mais pungentes que brilharam este ano na tela do Cine Brasília.

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2010/11/29/interna_diversao_arte,225282/quarto-longa-concorrente-ao-candango-o-ceu-sobre-os-ombros-entusiasma.shtml

AUTOR: Tiago Faria     OBRAS: O Céu sobre os ombros     REALIZADORES: Sérgio Borges