Entrevista de Sérgio Borges - Revista Diverso

01. Descreva-me seu sentimento ao receber a notícia que seu primeiro longa foi selecionado para o festival de Brasília.

Um momento muito feliz, pois sabia da importância do Festival e considerava que era o melhor lugar de lançamento para o filme.

02. Fale sobre a importância do Festival de Cinema de Brasília (opinião pessoal e geral)

O festival de Brasília é o mais antigo do Brasil, e é marcado (entre bons e maus momentos) como o grande festival que discute a linguagem e o0 cinema autoral no país. A história do festival de Brasília se confunde com a história do cinema brasileiro. Roberto Santos, Rogério Sganzerla, Joaquim Pedro de Andrade, Ruy Guerra, Paulo César Sarraceni, Carlos Reichenbach, Júlio Bressane, Luiz Fernando Carvalho são alguns dos vencedores do festival, o que demonstra o que falei.

03. Descreva a kinescopagem e dê, por favor, a sua opinião sobre a exigência do filme em película no Festival de Brasília

A kinescopia é um processo que filma quadro a quadro o material finalizado em vídeo. é um processo mais antigo que o transfer digital, e foi escolhido por ser o mais barato. Brasília talvez seja o único festival do mundo a ainda manter a exigência da película. O cine Brasília, onde se realiza o festival não tem os equipamentos necessários para uma boa projeção digital, o que precisa ser revisto com urgência. Um festival que preza pela renovaçnao de linguagem não pode se furtar a permitir que os trabalhos finalizados em vídeo tenham possibilidade de seleção

04. Fale da tensa possibilidade de ser desqualificado do Festival (se nao conseguisse passar para película), da busca por patrocinadores, e do bem-sucedido investimento

Quando enviamos o filme para o festival sabíamos que estávamos nos colocando numa situação arriscada. Não tínhamos um centavo para finalizar o filme, mas meu sócio e produtor Helvécio Marins Jr. por todo carinho e história que tem com o festival, resolver bancar essa aposta. Foi uma alegria grande e ao mesmo tempo motivo de tensão a seleção, pois não sabíamos que alguém toparia nos patrocinar. Felizmente encontramos na competente a sensível figura do Marcos Barreto e na Vivo, alguém que entendeu a importância dessa cópia, não só para o filme, como para o cinema mineiro de uma forma geral. A Vivo viu também a oportunidade de estar associada a uma produção de baixo custo, mas que podia ter um grande potencial de circulação se estreasse em Brasília. Tivemos também o apoio fundamental da Primo Filmes, da Cinepro-Dot, do Estúdio Serrasônica e da Cinema, que se tornaram parceiros do filme e possibilitaram sua finalização. Conseguimos com a soma desses esforços viabilizar na última hora uma cópia, que ficou pronta três dias antes da exibição. Essa articulação foi benéfica para o filme e para todos os envolvidos.

05. Fale da sessão do filme em BSB, da alegria do reconhecimento com as premiações

Uma estréia de filme gera sempre expectativa, ainda mais sendo do primeiro longa e num festival importante. Por mais que acreditemos no filme, existe o momento mágico em que a gente o compartilha com o público, e só nesse momento fica claro se nos expressamos bem, se o filme comove e mexe com quem o asiste. Duratne toda a sessão fiquei sem saber se o público tinha “entrado” no filme, mas os aplausos intensos no final me deram grande alívio. Depois os abraços, os olhares, os elogios me fizeram perceber que pelo menos naquela exibição e filme tinha cumprido sua função de espelhar o ser humano, para que os espectadores pudessem se relacionar com as situações apresentadas pelo filme, sentirem e pensarem os personagens do filme em sua intimidade. Uma premiação é uma forma de reconhecimento pelo trabalho, ainda é uma forma de legitimação. Por mais que o festival pudesse dividir a premiação entre outros filmes muito bons que estavam concorrendo e assim demosntrar a força da curadoria nesse ano no festival, fico muito contente do filme ter consquitado em conjunto os principais prêmios.

06. Faça uma breve sinopse do filme e fale os motivos que o levaram a contar essa história de personagens de extraordinárias facetas, suas idéias e inspirações…

O filme conta a história de três pessoas anônimas, comuns, mas que ao mesmo tempo tem histórias que podem parecer inventadas. São pessoas que de alguma forma estão numa zona de marginalização e de preconceito. O filme é um gesto de estar perto dessas pessoas para demonstrar suas complexidades, sem julgamentos, para demosntrar ao espectador que somos todos seres humanos e que temos medos, desejos muito semelhantes.É um filme que mostra a solidão, mas também o desejo de amar e ser amado, é um filme sobre a tolerância que temos que ter com os outros e com a nossa própria vida. É um filme que resiste ao preconceito.

07. Fale da mistura da realidade com a ficção e de como a magia do filme está na ausência da demarcação de limites entre a realidade e a encenação

Ficção e realidade são conceitos criados para tentarmos explicar o mundo e os acontecimentos. Toddavia na prática essas instâncias se retroalimentam e se confundem. As pessoas tem fantasias, desejos, sonhos – elas criam uma ficção para si mesmas, daquilo que querem ser, de como querem ser vistas pelo outro. É essa ficção que criamos de nós mesmos que impulsiona o que materializamos como realidade em nossa existência. Todos nós de alguma forma comportamos e criamos vários personagens para nossas relações sociais, mesmo sem uma câmera por perto. O cinema é a expressão artística que mais se aproxima da imagem da vida que nós vemos e sentimos. Quando vemos um filme temos a impressão não de olhar para um símbolo, mas de estarmos vivendo a própria vida. Assim sendo, a experiência de trabalhar com atores não-profissionais atuando a partir de sua própria experiência cotidiana, traz para o espectador essa impressão de verdade, de frescor, de vida, por mais que usemos de artifícios para potencializar a narrativa, a dramaturgia, a composição. Lançamos mão de pequenas mentiras para falar de uma verdade maior. Não importa o que é verdade ou inventado na história dessas pessoas. Importa que esses personagens estão falando para os espectadores sobre a vida, sobre ser humano.

08. Faça um panorama do cinema nacional, das bilheterias, do recorde atingido por Tropa de Elite 2 e das chances de um filme como o seu entrar no circuito

O sucesso do cinema nacional não pode ser medido pela sua bilheteria, por mais que o cinema seja uma arte cara, e que, de alguiguma forma precise se pagar. Há cerca de 15 anos o acesso a produção foi democratizada com o surgimento da tecnologia digital. Muito mais pessoas tem a possibilidade de fazer um filme. Existe uma geração emergindo no Brasil, dezenas de jovens muito talentosos fazendo filme muito interessantes. Filmes baratos, menores, mas com um potencial expressivo e de linguagem muito mais ambicioso. Temos um problema sério para exibir e distribuir esses filmes, mas temos o desafio de enriquecer a cultura audiovisual do nosso país com uma linguagem que vá além da linguagem da TV. O cinema não pode ser uma adaptação da linguagem televisiva, por maior qualidade que ela tenha, dentro daquilo que se propõe a ser. Porque no fundo, a Tv tem a intenção de vender, e o cinema é quem deve fazer o papel de auto-crítica do audiovisual e de uma crítica mais aprofundada do ser humano. A TEIA e outros realizadores querem conquistar espaço dentro do circuito comercial, mas queremos distribuir o filme também para outros públicos. Junto com o Felipe Duarte, um dos produtores do filme, estamos agora viabilizando a distribuição do filme para mais de 800 cineclubes criados pelo MINC no interior do país e nas periferias dos grandes centros urbanos. Um dos filmes que começaram essa iniciativa o “Terra deu Terra come”, distribuido pelo Felipe, foi exibido já em 100 cineclubes, com mais de 8000 espactadores. As pessoas não vêem nossos filmes porque nnao tem acesso ou por condicionamento a um modelo narrativo muito arraigado em nossa cultura. Mas as pessoas estão muito mais dispostas a novidades do que pode parecer. 

AUTOR: Bruna Ribeiro     OBRAS: O Céu sobre os ombros     REALIZADORES: Sérgio Borges