Trecho

Clarissa Campolina / Helvécio Marins Jr

35mm | 16 min | cor | 2006

Este projeto começou em 2001, quando Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr, pediram ao escritor Marçal Aquino os direitos de adaptação cinematográfica de seu conto “Boi”. O texto trata da história de um mendigo, apelidado de “Boi”, que resolveu abandonar as ruas e conseguir uma casa para morar. O projeto foi um dos vencedores do Concurso Público de Apoio à Realização de Projetos Audiovisuais Cinematográficos Inéditos de Curta-Metragem, promovido pelo MINC. Os diretores começaram, então, um intenso processo de pesquisa com moradores de rua de Belo Horizonte, no intuito de aprender mais sobre este universo e de encontrar pessoas para atuarem no filme. A convivência e o aprendizado com a população de rua, imprimiu mudanças profundas no projeto e revelou um nova compreensão das ruas, onde se faz presente o desejo de viver fora da sociedade tradicional, de romper com seus costumes e sua estrutura, extrapolando em grande medida a miséria, a crise econômica e a falta de emprego no país. O Projeto, então, começou a tomar novos rumos, recheado pelas histórias dessas pessoas, pela forma diferenciada de se inserirem na sociedade e pela forma não-linear com que elas estruturam o próprio pensamento.

Durante esta pesquisa, nos associamos à Cláudia de Paula e à ONG Nossa Senhora da Rua e conhecemos Libério, um ex policial militar, que abandonou seu emprego e sua casa em Recife, há 8 anos. Libério caminhou durante 6 meses por diversas estradas brasileiras até parar em Belo Horizonte. Libério foi um dos maiores freqüentadores dos encontros semanais e uma confiança mútua abriu espaço para suas confissões, nas quais narrou detalhes de sua vida - desde antes da sua partida de Recife - seus medos, anseios, desejos e sua tentativa de quebrar com a lógica social e de se reestabelecer como pessoa.

Foi então que concluímos que a melhor forma de falar sobre o universo das ruas, seria a partir da própria experiência de Libério. O roteiro de ficção foi alterado e o projeto incorporou um caminho documental. O filme retrata a volta de Libério para o “trecho” - titulo do curta – e sua passagem pelas mesmas estradas e cidades por onde ele esteve há 8 anos atrás. A recriação dessa viagem faz o curta transitar entre os gêneros ficção e documentário, aproximando sua estrutura às “folhas soltas de um diário” e à forma como o próprio personagem-depoente estrutura seu pensamento. Para isso, o filme entrecorta planos longos e silenciosos com trechos dos depoimentos de Libério, ao falar sobre sua decisão de abandonar sua casa e sua família, de seu rompimento com o mundo, suas histórias, seus desencontros, o medo e a solidão. O curta foi pensado e construído no intuito de ilustrar a realidade do personagem no “trecho”, reviver e reativar sua memória através da reencenação da sua caminhada ao sair de Recife em 1998, mas sem julgamento ou compaixão.