Tecer

TEIA, André Brasil

Mostra de Filmes e Oficina

1° encontro: O singular e o comum
Participantes: Alexandre Veras, Carlos Nader e Cláudia Mesquita

Como sugerem alguns teóricos, é notável no cinema brasileiro atual uma recusa às generalizações, em uma atenção focada no detalhe, no fragmento de realidade e nas experiências eventuais. No domínio do documentário, por exemplo, os filmes se dedicam, prioritariamente, à vida dos homens ordinários, às banalidades dos lugares e aos percursos singulares. Estamos distantes, nesse caso, do chamado modelo sociológico que, para Jean-Claude Bernardet, caracterizou a produção de viés crítico no Brasil da década de 60.
Se a questão não é nova e nem restrita ao cinema, hoje ela retorna como um desafio. Por um lado, atentos às nuances e diferenças próprias do cotidiano, os realizadores podem criar imagens “fora de lugar”, que não se submetam totalmente às classificações, às tipologias e às identidades.  Por outro lado, cabe perguntar (como o faz, por exemplo, Cláudia Mesquita): como o filme enfrenta – em sua mise-en-scène e em sua escritura –, a tarefa de passar da experiência eventual à experiência coletiva? Como se passa, no filme, do singular (um personagem, uma vida) ao comum (uma comunidade, uma coletividade)?
 


2° encontro: O roteiro, ainda?
Participantes: Cézar Migliorin, Cléber Eduardo e Eduardo Jorge

É conhecida a crítica de Jean-Louis Comolli aos roteiros: para além das ficções, ele nos diz, os processos de roteirização avançam para o domínio da própria realidade, estruturando de antemão nossas experiências e nossos desejos. Diante deste processo, o cinema pode ser o lugar de uma resistência. Nesse sentido, interessa, principalmente, “como filmar”, “como fazer para que haja filme”.
Entre o desejo do filme e sua realização, a questão do roteiro ainda se coloca aos diretores.  Abandonar o roteiro e abrir a obra ao risco de seu processo? Fazer do filme um jogo, um dispositivo, cujos desdobramentos são, em certa medida, imprevistos? Inventar novas formas de escrita, que tornem o roteiro uma mediação aberta e não uma operação de cálculo? O que envolve, concretamente, a opção de roteirizar um filme hoje?
 


3° encontro: A invenção da cena?
Participantes: André Brasil, César Guimarães e Stella Senra

Uma cena é sempre uma prática, uma experiência compartilhada entre os realizadores de um filme, os personagens e, depois, entre os espectadores. Hoje, mais do que nunca, a mise-en-scène do cinema está, necessariamente, atravessada pelas práticas de outros domínios. Primeiramente, a televisão e a publicidade, que tensionam os filmes em várias de suas dimensões: os financiamentos, os circuitos de exibição, os métodos e as próprias equipes que, muitas vezes, transitam de um a outro domínio. Depois, a internet e os dispositivos móveis, que intensificam a produção e circulação de imagens, criando deslimites entre os pólos de criação e de recepção. E, ainda, a arte contemporânea que, por um lado, instaura novas práticas e novas formas de produção de imagens e, por outro, abriga filmes e projeções em seu próprio circuito. Para alguns, essa mistura exigiria se pensar em uma expansão do cinema para além dele próprio, algo que se resumiria pelos termos genéricos de audiovisual ou de cinema expandido. Para outros, esse processo de expansão exigiria do cinema justamente se manter como uma prática específica, como o lugar de uma resistência. Entre uma e outra defesa, a pergunta que persiste é: como se criar, hoje, uma cena?