Tecer

TEIA, André Brasil

Mostra de Filmes e Oficina

Os filmes que procuramos, os filmes que nos procuram

Em entrevista recente, o crítico da revista Rouge, Adrian Martin, sugere que falar sobre um filme é dar um testemunho, algo que resulta de um encontro: entre as imagens que procuramos e as imagens que nos procuram. “Viemos doutro lugar, chegamos como cidadãos do cinema para falar sobre um filme, porque ele nos compeliu quando a nós se mostrou. É isto que nos dá o direito de nos levantarmos e falarmos sobre um filme.”

As escolhas desta mostra – nascidas de conversas espontâneas – parecem se efetuar nesse lugar eventual entre o que buscamos e o que nos encontra. Trata-se de um conjunto conciso e diverso de filmes brasileiros recentes, alguns já reconhecidamente fundamentais na produção atual, outros realizados com poucos recursos por diretores em início de percurso. Diferentes em propósitos e em resultados, todos compartilham certo risco na tarefa de enfrentar as questões que se impõem ao cinema hoje.  Aqui, nossa escolha é, antes de tudo, afetiva e se pauta pelo desejo de pensar como cada filme – em suas opções, em seu processo, em suas irregularidades – enfrenta essa tarefa.

O cinema, sabemos, é uma prática, que envolve a equipe de produção, os personagens e os espectadores. O que está em jogo nessa prática são experiências, formas de vida: elas possibilitam o filme e são possibilitadas por ele. Por isso, um filme é sempre uma possibilidade. Diante da inflação de imagens em dispositivos diversos e da “usina de realidade” que se tornou o “audiovisual”, mais do que nunca, os cineastas precisam reinventar e questionar seus próprios métodos, de maneira a preservar essa possibilidade. Ou seja, preservar a tarefa do cinema de possibilitar experiências que não se realizem exclusivamente por meio do consumo e da gestão das audiências.

Além das oito obras escolhidas para a mostra, contaremos ainda, na abertura da programação, com a exibição de Aquele querido mês de agosto, do diretor português Miguel Gomes, que será comentado pela pesquisadora e realizadora Ilana Feldman. Em outra sessão especial, exibiremos Iracema, uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna. O crítico e ensaísta José Carlos Avellar aceitou a provocação de refletir sobre a herança dessa obra fundamental diante da produção atual. A mostra conta ainda com exibições especiais de Moscou, filme mais recente de Eduardo Coutinho, e Santiago, de João Moreira Salles. Por fim, temos a pré-estreia de Mulher à tarde, longa do estreante Affonso Uchôa. Bastante distintos em suas propostas e em seus resultados, todos estes filmes nos ajudam, contudo, a ressaltar a linha tênue que atravessa toda a mostra: uma crença na possibilidade de reinvenção do cinema, filme a filme.

A exibição das obras nos estimula a conversar sobre elas. Organizamos então um ciclo de debates, que se provoque por estes e outros filmes do cinema brasileiro recente. A intenção é pensar conjuntamente sua prática, seus métodos, escrituras e sua relação com o contexto mais amplo da produção audiovisual no Brasil hoje.

por André Brasil