SOLON

Clarissa Campolina

Brasil / 2016 / 16mm DCP/ Cor/ 16min

Há cerca de 7 anos avistei um meteoro cruzando o céu de Belo Horizonte. A luz vermelha permaneceu no escuro por cerca de 10 segundos e depois desapareceu da mesma forma que surgiu. Essa imagem sempre me acompanhou e, depois dessa visão, comecei a criar uma narrativa sobre o que aconteceria à Terra e a um possível sobrevivente solitário, caso um astro colidisse com o nosso planeta. Outras duas paisagens distintas pareciam pertencer ao filme: as montanhas devastadas de minério de ferro, depois de anos de extração do metal; e a foz do Rio São Francisco, onde devido à diminuição da força da vazão do rio, as águas do mar invadiram a terra firme e submergiram o farol que se encontrava na praia. Essas duas paisagens naturais, que se alteraram pela ação do homem, ao lado da imagem misteriosa do meteoro no céu da minha cidade, foram o suficiente para iniciar a fabulação de Solon.
 
Após a colisão do asteróide o mundo torna-se árido e sem muitas cores, marcado pelo vermelho e o marrom-acinzentado da terra.  A terra parece ter vida e em meio ao movimento de suas partículas e do fogo. Solon surge como parte desse cenário. Ela caminha lenta e ritmadamente, como se aprendesse os movimentos do seu corpo. Realiza gestos maquinais e seus movimentos são guiados pela topografia e pelo calor do fogo presente na paisagem. Em seu deslocamento, Solon aciona um mecanismo em seu corpo que passa a verter água. À medida que caminha, apaga o fogo e executa movimentos mais leves e suaves. O volume de seu corpo diminui, temos a sensação de que ao jorrar água, o ar a penetra. Junto com a personagem, a paisagem se transforma. O fogo desaparece e dá lugar a um rastro de fumaça. Fumaças coloridas brotam da terra marrom-acinzentada em direção ao céu e criam uma atmosfera mágica. O movimento de Solon se torna cada vez mais fluido, orgânico e feminino. A água começa a surgir da terra e a precipitar do céu. Rodeado de água, o corpo de Solon se transforma e partes do corpo de uma mulher nos é revelado. O sol se põe. Solon, agora em um corpo feminino, descansa sob a chuva e é iluminada pela luz do farol presente na paisagem.
 
Me interessava trabalhar nesse filme a trasformação de maneira ao mesmo tempo mágica e concreta. Partindo de imagens reais e efeitos criados in loco, efeitos mais orgânicos e presentes na imagem filmada - a terra que se mexe ao ser magnetizada, a fumaça que colore a paisagem marrom acinzentada, o corpo da criatura que jorra água, a água que brota de uma terra seca. A opção de capturar as imagens do filme em 16mm, dialogam e potencializam essa vontade. Além disso, me interessava criar uma fábula de criação ou re-criação do mundo, tendo uma personagem feminina como protagonista dessa ação.

Para mim era importante também, não identificarmos se o filme narra uma fábula de um tempo passado (da criação do mundo),  futuro (do fim do mundo) ou presente (do estado das coisas). Ele deveria lidar com algo que está contido nesses três tempos e, por isso mesmo, é mais confortável pensar em uma narrativa fora do tempo. A trilha sonora é fundamental na construção dessa sensação. Partindo do real, suspende-se o tempo e presenciamos todo o movimento de transformação.