O Céu sobre os ombros

Sérgio Borges

71min | 35mm | cor | 2010

O CÉU SOBRE OS OMBROS é um filme que trata da solidão e das dificuldades da vida humana, mas também trata de como os homens criam suas saídas, suas respostas às dificuldades, sua felicidade. Mostra o “perfeito desequilíbrio” dos vivos, e sua ânsia por serem mais, por serem melhores, sua vontade em ir além. É um filme de amor, de tolerência, de resistência ao preconceito.

De maneira indireta, O CÉU SORE OS OMBROS é um filme que trata da subjetividade com que cada um de nós construimos a realidade que vivemos. O filme mostra ao longo de sua narrativa como as pessoas materializam suas realidades projetando seus desejos, seus sonhos, sua memória. O filme mostra a realidade como “grande ficção” que ela é, e usa o cinema como metáfora de como existimos no mundo.

A proximidade entre realidade e representação é a essência da experiência formal e de encenação de O CÉU SOBRE OS OMBROS. As pessoas que são os atores do filme representam personagens de si mesmos. O filme cria sua narrativa a partir das histórias “reais” de suas vidas, mas através de sua construção de linguagem transcende a realidade. Usa pequenas mentiras, pequenos artifícios para criar uma verdade ficcional dos personagens.

SOBRE A ENCENAÇÃO

A diferença entre a vida real e a representação da realidade através da imagem tem seus limites cada vez mais diluídos dentro do imaginário coletivo, desdobramento de um mundo saturado pelas imagens da Tv, da internet, do cinema, da publicidade, dos reallty shows. Muitas vezes (ou sempre?) somos mesmo, espectadores ou personagens dentro desse mundo virtual.

Mas podemos ir mais adiante, e dizer que todas as pessoas têm um condicionamento performático que utilizam em seu dia-a-dia. São gestos apreendidos, reflexos adquiridos, posturas assimiladas, mise-en-scenes sociais que são absorvidas dos grupos e contextos nos quais estão compreendidas. Podemos ver a vida como um grande cenário em que ocorrem diversas representações (não filmadas) que sustentam toda a gama de relações sociais. Todas as pessoas já são atores representando suas mise-en-scenes coletivas e particulares na vida.

O processo de criação foi uma aposta na capacidade das pessoas filmadas de gerirem o conteúdo de suas intervenções, de se colocarem em cena. Elas se encarregaram da mise-en-scene com autonomia, sem se tornarem dependentes das vontades do diretor. Nada de textos pré-estabelecidos ou posições marcadas para a câmera. Elas decidiram se movimentar ou não, ocuparam o espaço de uma maneira ou de outra, aguentaram a duração, estabeleceram sua respiração. Ao diretor coube acolher suas mise-en-scenes, e costurar as dramaturgias necessárias àquilo que faziam, que desejaram fazer sentir. A direção não tinha a intenção de guiar, mas de seguir. A partir de uma intimidade e de uma confiança geradas nesse processo, atores e diretor puderam criar também outras cenas que iam além da vida corriqueira dessas pessoas. E o diretor pôde utilizar de pequenos artifícios que interferiam na realidade vivida por eles, para afinar a construção de uma condução narrativa mais sólida . Mas a ficção, que é acentuada pela composição formal dos quadros, pelo caminho dramatúrgico forjado e pelas escolhas elipticas de montagem, se dão de fato é na relação de reconstrução da realidade mediada pela câmera e na “criação de personagens” que cada um de nós tem ao se relacionar com o mundo. De alguma forma, o filme quer demonstrar que as potencias do falso e do artifício e as vertigens do simulacro são a essência do cinema , mas são também inerentes à nossa presença no mundo atual.

 

SOBRE A ABORDAGEM ESTÉTICA

 

O filme se passa especialmente no interior das casas dos personagens. Por detrás dos personagens, a imagem revela ambientes simples, com uma composição espacial realista, bruta, de arquitetura reta e primária, sem interferências de direção de arte. As casas dos personagens têm poucos cômodos, são apertadas, sem recuo e denotam, sem precisar de outras explicações, a condição sócio-financeira modesta de cada um.  Sem recorrer ao uso de lentes grande-angulares, as imagens cortadas revelam essa falta de espaço, e levam o filme a se concentrar nos corpos, nos gestos, nas ações dos personagens. A câmera é essencialmente fixa, o que torna notável o movimento da realidade e da performance corporal dos mesmos, acentuando a construção de um tempo fílmico próximo do tempo da vida. A câmera trabalha em função dos movimentos dos personagens e não o contrario. Centrado neles, o filme joga com o fora de quadro, com a entrada e saída do campo visual,  com as ações e interlocutores que muitas vezes escutamos mas não podemos ver. Mesmo nos espaços públicos, que revelam o contexto urbano do filme, seguimos colados a seus corpos e essa insistência nos leva para perto de suas vidas. As gravações consistiram em acompanhar e trabalhar cenas do cotidiano destas pessoas, a partir de um recorte de ações que levaram em conta seus atos corriqueiros, suas relações interpessoais, seus trabalhos, suas histórias de amor e o processo de escrita de seus livros. Resistimos pacientemente com a câmera ligada  por muito tempo, e, por esse caminho ganhamos a intimidade dos personagens e a sua falta de auto-censura. No entorno, o espaço e o som nos revelam mais sobre eles. Os personagens estão constantemente ouvindo músicas, no rádio, na vitrola, no computador. O estilo das músicas dão indícios das características dos personagens e marcam suas diferenças. Muitas vezes o som ambiente preenche a solidão dos personagens e muitos dos diálogos do filme se dão através do telefone, o que denota uma característica de virtualidade e isolamento físico de nossos tempos atuais. O filme utiliza quase que em sua totalidade o som direto e cortes secos acentuam a aposta nas elipses de tempo como catalizador da potência da narrativa. Não vemos nem o início nem o fim das histórias desses personagens. Nos basta essa abertura de alguns dias para que possamos conhecê-los, possamos nos identificar com suas humanidades, possamos reconhecer que somos muito próximos a eles, possamos reconhecer algo que vai além deles, que trata da relação entre imaginação humana e realidade. Nesse sentido, o filme é bastante econômico: vai revelando os personagens pelo acúmulo de situações, experimenta suas situações-limite, mas não mostra além do essencial.